O que é língua e linguagem?
A língua e seus conceitos
Existem muitas definições de língua, e cada uma delas serve à situação em que foi concebida, como, por exemplo, instituir uma teoria, compreender como se dá a aquisição da linguagem, estudar a comunicação humana, discutir as relações sociais estabelecidas nas interações. Nesse universo de estudo da língua, destacam-se as abordagens a seguir.
Saussure e a ciência linguística
Apesar de os estudos sobre a linguagem instigarem o ser humano há muitos e muitos anos, o estudioso suíço Ferdinand de Saussure, que viveu no período de transição entre os séculos XIX e XX, é conhecido como o fundador da ciência linguística. Para ele, a língua só pode ser estudada em si mesma, sem relação com seus usos, e definida como um sistema de valores determinados por convenção social.
Assim, a teoria do pesquisador europeu considera que a língua é composta de signos linguísticos e que estes, por sua vez, equivalem a uma imagem acústica (significante) associada a um conceito convencionado socialmente (significado). Ou seja, para Saussure, ao ouvirmos uma sequência sonora em uma língua conhecida, imediatamente a associamos a um conceito específico, igualmente reconhecido por todos aqueles que conhecem tal língua.

Significante e significado, segundo Saussure. Fonte: https://semioticacomunicacao.files.wordpress.com/2017/01/signo-lingustico-4-638.jpg
As ideias de Saussure foram extremamente importantes para que a linguística se instituísse historicamente como uma ciência e ainda hoje são utilizadas em diversas pesquisas relativas à linguagem. Entretanto, o fato de essa teoria tratar a língua como um objeto em si mesmo e, assim, não a analisar nos textos que circulam socialmente, faz com que ela não seja considerada, aqui, como a mais interessante para propiciar o aprofundamento em nossos estudos de língua portuguesa.
Jakobson e a teoria da comunicação
Roman Osipovich Jakobson, na tentativa de estudar a língua considerando questões externas a ela, parte de um princípio diferente do de Saussure e propõe a teoria da comunicação. Historicamente, essa teoria pode ser vista como uma possibilidade de incorporar às pesquisas linguísticas dados relativos aos textos, como: quem produz, em qual meio, quem recebe, o que se diz, etc.
Nesse contexto, a língua é considerada um código utilizado pelos sujeitos a fim de se comunicarem por meio de textos. São códigos, entre outros exemplos, os sinais de trânsito, as imagens e ícones que reconhecemos em placas diversas e a própria língua.
Código é um conjunto de sinais que, por convenção, é adotado por um grupo específico com o fim de estabelecer comunicação.

Exemplos de códigos facilmente reconhecidos em nossa sociedade. Fonte: Acervo pessoal - Professor Dimas Rodrigues Dutra
Bakhtin e uma nova concepção de língua
Vimos que a língua pode ser definida tanto como um sistema de signos que correspondem a conceitos socialmente elaborados quanto como um código utilizado para estabelecer comunicação. Dependendo do objetivo de quem as adota, as duas definições são válidas.
Contudo, para nosso estudo, que tem por finalidade refletir sobre a língua em uso nos textos orais e escritos com que lidamos no nosso dia a dia, seja como produtores, seja como leitores, a língua deve ser considerada de maneira mais ampla.
A língua faz mais do que estabelecer um canal de comunicação: ela pode permitir que uma pessoa exerça poder sobre outra(s) ou manipule situações, pode criar amizades ou antipatias, pode abrir ou fechar portas, e isso depende, entre outros fatores, da maneira como os interlocutores compreendem e se relacionam com os textos que produzem, que recebem, que chegam a eles por diferentes meios.
Interlocutores são as pessoas que, por meio da(s) linguagem(ns) e em um processo contínuo de interação, produzem e recebem textos.

Interlocutores em um processo de interação. Fonte: Acervo pessoal - Professor Dimas Rodrigues Dutra
As escolhas feitas ao se produzir um texto, bem como as possibilidades de entendimento construídas no momento de sua leitura, podem ser menos ou mais aprofundadas, ou complexas, ou críticas, dependendo do conhecimento dos interlocutores sobre todas as variáveis de que a língua se constitui. Certo fato, contado de maneiras distintas, pode transformar pessoas em vítimas ou vilãs, conforme queiram os produtores do texto.
Portanto, podemos definir que:
A língua é um fenômeno indissociavelmente cultural, social e cognitivo construído e compartilhado pelos interlocutores no processo de interação verbal.
A linguagem
A todo momento, estamos usando linguagem. Frases, gestos, imagens, expressões faciais e corporais, tudo isso é linguagem. Através do que escolhemos e como usamos, nos tornamos pessoas que interagem com os outros. A forma como nos comunicamos mostra muito sobre quem somos, pois os significados das palavras e gestos são definidos pela sociedade.
A linguagem; pois, pode ser definida:
A linguagem é a forma como nos comunicamos, interagindo com outras pessoas e com diferentes tipos de mensagens de maneira contínua.
A linguagem pode ser verbal (constituída de palavras, faladas ou escritas), não verbal (constituída de melodias, gestos, expressões físicas, imagens, etc.) ou mista (simultaneamente verbal e não verbal).

Exemplos de linguagem verbal, não verbal e mista, respectivamente. Fonte: Acervo pessoal - Professor Dimas Rodrigues Dutra
Referências:
CEREJA, W. R. Português contemporâneo: diálogo, reflexão e uso, vol. 1/William Roberto Cereja, Carolina Assis Dias Vianna, Christiane Damien Codenhoto. - 1. ed. São Paulo: Saraiva, 2016.
